Sob uma jornada (1º parte)

 


Me encontro em meio a um deserto gelado, uma imensidão de um branco tão puro quanto as nuvens no céu. Estou sozinho e talvez essa seja uma realidade constante na minha vida. Carrego minha mochila nas costas, com mantimentos e cobertores, aninhado e bem protegido, tem um livro que apesar de nunca ler eu sempre carreguei. 

Uso densas roupas de inverno em tons marrons para me proteger do frio rigoroso, lembro de me parecer com os aviadores ingleses da Segunda Guerra Mundial, com minhas botas de cano alto pretas, luvas, um gorro que protege as orelhas e um lenço de tecido cobrindo a boca e nariz. Talvez de perto a parte mais descoberta sejam os olhos, pois já se acostumaram à paisagem. 

Ando devagar, passos pesados pela exaustão e os desníveis do terreno, a neve pode ser branca, mas também é cruel. Em qualquer direção que eu olhar só veria a imensidão branca com o contraste da aurora boreal. É como estar preso na caverna de Platão, talvez eu possa me tornar escravo da abóbada alabastrina. 




Sigo em frente com minha caminhada, não sei onde quero chegar ou porque estou caminhando, apenas parece o certo a se fazer, afinal não é isso que todos fariam em meu lugar? As vezes paro por um momento em algum lugar, longe do vento, monto minha pequena barraca triangular e faço a refeição, por mais insólita que possa parecer. Nesses momentos sob o teto do meu pequeno refúgio eu canto, canto como se fosse meu último suspiro, assim talvez alguém possa me achar em minha perdição. As músicas carregam tons tristes, são fruto da minha melancolia e como ela, podem tocar o coração. 

Ao retirar meu acampamento improvisado e partir, sinto o frio, um vento constante e cortante como uma faca afiada. Ele sempre vai estar rasgando minha pele e congelando minha alma, mesmo sob minhas fortes roupas, ele é insistente e desolador. Sigo a passos lentos, por um caminho que não tenho ideia de onde levará, assim talvez seja a vida de todas as pessoas, mas para mim, perdido nesse mar branco é um peso ainda maior.

Às vezes tenho a súbita consciência do meu propósito no mundo e de como posso ser insignificante diante do universo em sua imensidão, porém esse sentimento também provoca o contrário e vejo o quão grande minha alma pode ser. Esse pensamento sobre o mundo me traz um pouco de medo, pois é sempre muito majestoso ou desolador. 

Em raros momentos passo por pequenas elevações no terreno e consigo avistar o horizonte, mas até agora não vejo nada, nenhum sinal de vida, somente o branco. Os dias passam lentamente, assim como os quilômetros que percorri, perdi a muito, a noção do tempo e nesse deserto de gelo ele é algo sem importância. Talvez anos tenham passado e eu continuei andando junto a aurora boreal. Era uma companhia muito estranha, bela e bucólica.

 


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